- Tanto lugar bacana e vocês foram escolher logo essa sombrazinha....
- Ribamar, é a luz, Ribamar, é a luz!! Naquela outra, a sombra não é boa...
- Eu não tô dizendo nada, dona Elza. A senhora é que sabe a sombra
que quer. Sombra mesmo, se a senhora queria, só dentro da igreja...
E, assim, cuidando também para a canoa não virar com os rompantes de
Ribamar e as nossas risadas na sequência, seguíamos atravessando a
fumaça dos fogos sob os aplausos dos romeiros nas canoas e de outros
tantos às margens do rio.
- Ribamar, mais rápido, Ribamar! Vamos esperar a santa embaixo daquela árvore...
- Qual? Dona Elza, isso não é árvore, é tranqueira! Agora me deu medo: a senhora não sabe mais o que é uma árvore...
- Ribamar, para a canoa, Ribamar, para, para! Pedia o Pedro.
E o Ribamar acionava o freio do remo. Freio ou força espiritual, eu só sei que, de fato, a canoa parava! Pedro agradecia:
- Maravilha, Ribamar. Você foi o máximo. Essa foi “a chapa”!
Todas as vezes em que o Pedro movimentava-se, sugerindo ficar em pé
na canoa para fazer “uma chapa”, eu me imaginava tocando o fundo do rio e
sendo resgatada, delicadamente, com carinhos de mãe, por Nossa Senhora
da Conceição pessoalmente!
Ribamar não resistia mais do que alguns minutos calado:
- Eu não quero dizer mais nada, dona Elza. Só mais uma coisa: se a gente ficar bem ali, vai dar pra fazer “muita” foto legal!
Elza concordava. Outras vezes, discordava.
Num dado momento em que passou ao nosso lado uma canoa bem rápida, eu comentei:
- Esses caras são bons, mesmo, Ribamar! Estão remando pra valer. E como estão suados!
- A senhora gostou, foi? Bom sou eu que vou passar deles. Aperta aí, Angelo!!
E passamos, mesmo!
Quando já estávamos num das voltas finais do rio, com mais gente às
margens, acenando e aplaudindo a procissão, um senhor, em sunga de
banho, fazendo o sinal da cruz e segurando um copo de cerveja, fez uma
saudação para a nossa canoa:
- Ei, parente, tô aqui tomando banho e esperando a santa passar.
Ribamar nem piscou. Olhou para o senhor e respondeu:
- Tomando banho, né, parente? Só se for dentro do copo!
Foi muito difícil controlar as gargalhadas e os movimentos para a canoa não virar.
Depois da última curva, sol esquentando, já avistando os banhistas,
sensação de missão cumprida no ar, o restante do percurso foi só de
fogos, de aplausos, de canoa encostando uma na outra, remos no ar,
romeiros pulando na água.
Em terra, depois da chegada, agradecemos ao comandante Ribamar e, ele, abraçado à velha amiga, disparou:
- Dona Elza, tô muito feliz de ter feito mais um círio com a senhora.
Se Deus quiser, ano que vem, de novo! Eu tava tão preocupado de pegar a
senhora e o seu Luiz na minha canoa que eu nem dormi. Juro por Nossa
Senhora! Fiquei a noite inteira, aqui na beira com uns colegas, tomando
umas geladas para não perder a hora.
- Ribamar, tu estavas remando bêbado, Ribamar?? Eu te mato!!
- O que é isso, dona Elza? A senhora vai esquentar agora? Eu gosto tanto da senhora. Não foi tudo joia?? Não esquente!
Voltamos para Belém. Felizes da vida. Eles, os fotógrafos, cheios de
imagens. Eu, com essa historinha a me fazer sorrir todas as vezes em que
alguém fala no rio Carapuru e no Círio fluvial de Nossa Senhora da
Conceição.
Foto de Elza Lima